Tocando Carlos Paredes

Carlos Paredes (1925-2004) escreveu em 1963 uma música que se tornaria um ex-libris luso por excelência. Longe do furore espressivo dos fadistas, Paredes cria uma música que mostra a idiosincrasia da guitarra portuguesa e até que ponto ela é expressiva para lá dos lugares comuns do
fado das vielas e da má vida.
Não só foi uma lufada de ar fresco no panorama bolorento da música popular urbana portuguesa da época, como essa música é o tema de um filme que virou do avesso o cinema português. Que salvas raríssimas excepções sobrevivia em estado de tensão oxidativa.
Os Verdes Anos (1963) de Paulo Rocha mostra-nos uma Lisboa, já então, em permanente estaleiro, com as Avenidas Novas e os seus burgueses mais ou menos anafados, servidos por sopeiras que das berças afluiam à capital do Império. E os sobrinhos dos tios sapateiros que namoriscavam as sopeiras, consumando na cidade o que outrora se consumaria no campo.
Mas neste pachorrento idílio as trevas espreitam, e os bons rapazes são por vezes os piores.
Na música de Paredes sente-se essa inquietação, esse agitar de alma, ou da falta dela. E se houver música que defina a singularidade lusa, é esta. Nada há que se lhe assemelhe por esse mundo fora. Sendo português, com tudo o que isso tem bom e mau, esta música cola-se-me à pele: raspa-se e não sai.
Carlos Paredes: Os Verdes Anos
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Le Je ne Scay Quoy
- Mafalda Nejmeddine: cravo
- Javier Aguirre: viola da gamba
- António Carrilho: flauta de bisel
Fotografia de Jsome1.
